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O futuro da engenharia civil também passa pela revolução digital

25/06/2018 - 01:03

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Paulo Ribeirinho Soares, presidente do Colégio de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros diz que a digitalização poderá baixar os custos de construção em 20% a 30%.

O Colégio de Engenharia Civil realiza na próxima sexta-feira, em Aveiro, o seu encontro nacional, no âmbito do qual terá lugar uma conferência sobre o futuro da actividade. Paulo Ribeirinho Soares, presidente do Colégio, antecipa, a título pessoal, as grandes questões que estarão em debate.

Um dos painéis do Encontro Nacional de Engenharia Civil tem como tema "O que é ser engenheiro no século XXI". Como é que vê hoje a profissão?

É difícil imaginar como seriam as nossas cidades sem a presença de um engenheiro civil: casas, fábricas, hospitais, estradas, pontes, redes de águas residuais, barragens para abastecimento de água e para produção de energia eléctrica, entre tantas outras. A engenharia está presente em tudo e a civil em "quase" tudo.

O que é ser um engenheiro do século XXI é o titulo da palestra que o professor Luís Valente de Oliveira escolheu e aguardamos com o maior interesse. Atrevo-me, no entanto, a sublinhar que a designada quarta revolução industrial está considerada como a maior revolução tecnológica de sempre. Constitui, através da digitalização dos processos, uma evolução dos sistemas de produção industrial que garante benefícios como a redução de custos, de energia, o aumento da segurança e da qualidade, bem como a melhoria da eficiência dos processos. As soluções serão mais eficientes e mais rápidas de construir e irão integrar a gestão da manutenção e das operações.

Estas adaptações aos novos tempos devem ser especialmente implementadas no período da formação dos jovens, concedendo-lhes princípios e saber, de poder aprender, o que ainda não existe. Será este o perfil do engenheiro no século XXI, aliado a uma forte componente ética e de responsabilidade social.

Como é que a transformação digital está a mudar a engenharia civil e a construção?

A introdução da metodologia Building Information Modeling (BIM) está a começar a ser disseminada em algumas universidades. Ela permite, além de projectar uma "maqueta virtual" cujos objectos paramétricos contêm informação indispensável para se efectuarem as análises a que o modelo se destina, efectuar a gestão e coordenação das várias especialidades e da correspondente informação ao longo de todo o ciclo de vida de um projecto: concepção, execução, exploração, manutenção. Esta metodologia de trabalho está já a ser empregue em Portugal, em projectos e obras de dimensão significativa.

O futuro da construção e da Engenharia Civil, irá passar, na óptica da digitalização, também com a integração dos trabalhadores da primeira linha, que são particularmente relevantes no sector da construção, nas tecnologias digitais que proporcionem eficiência, qualidade e satisfação dos "stakeholders". Os trabalhadores do conhecimento terão um papel muito importante, na óptica da digitalização, na gestão dos projectos e dos processos, com o recurso à realidade mista e inteligência artificial e na automação da construção.

O sector em Portugal está preparado para este desafio?

A transformação digital da sociedade é hoje o mote central no debate das políticas públicas e no discurso político, atributo que hoje é imperativo e não uma opção. O sector vai obrigatoriamente evoluir neste sentido porque estas soluções informáticas colocam as pessoas em primeiro lugar, desenvolvem novas competências, automatizam e optimizam processos, fornecem informação e conhecimento em tempo real e reduzem o risco e o custo. Numa sociedade de economia aberta a concorrência vai obrigar à introdução destas inovações, porque a redução dos custos de construção pode atingir entre 20 a 30%, segundo vários especialistas.

A engenharia civil passou por um momento difícil com a recessão económica e a forte quebra na actividade da construção. Os tempos são agora mais auspiciosos?

A recente recessão económica da fileira da construção foi muito acentuada traduzindo-se numa perda de conhecimento do "saber fazer" de muitos técnicos e muitos engenheiros por reformas antecipadas e despedimentos. Foi um prejuízo imaterial significativo associado a um outro, que tem sido a descapitalização técnica da administração pública com consequências imprevisíveis.

O sector da reabilitação do imobiliário actualmente em alta é um dado muito positivo, nomeadamente em Lisboa e Porto, mas urge rever o liberalismo legislativo imprudente, nomeadamente com a resistência das estruturas aos sismos para não se incorrer numa reabilitação "botox", ou seja massas e pinturas.

As grandes obras públicas anunciadas têm um período de vida longo, acima de 100 anos, têm um elevado custo e tipicamente são decididas num período curto e nem sempre são consensuais. A estabilidade legislativa e um pacto de regime alargado quanto aos investimentos públicos dariam previsibilidade ao sector.

O emprego e os salários na engenharia civil já estão a recuperar?

O mercado está claramente a recuperar absorvendo engenheiros seniores, que fruto da recessão recente ainda estão desempregados, e jovens muito talentosos e muito bem preparados. De referir que algumas das escolas de Engenharia Civil em Portugal estão classificadas nos melhores "rankings" mundiais e a engenharia portuguesa tem esse crédito.


Fonte: https://www.jornaldenegocios.pt/negocios-iniciativas/detalhe/o-futuro-da-engenharia-civil-tambem-passa-pela-revolucao-digital

Assessoria de Comunicação AEMS

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